"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”.
(Dalai Lama)


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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Recomeçar do Zero


Você já quis ter uma borracha especial para apagar algo que fez, que aconteceu, algo que doeu tão fundo ou teve consequências tão graves que você daria tudo para voltar atrás e recomeçar?
Há muitos que dariam tudo na vida para recomeçar do zero, ter uma nova oportunidade para agir diferente, tomar outras decisões, fazer diferentes escolhas. E seu sei que muita gente já recomeçou uma nova vida, já deu uma volta importante que fez co m que os caminhos mudassem de direção e isso sempre é possível.
Mas não é possível recomeçar do zero. Recomeçar do zero não existe! Não existe fingir que não houve um passado e não estar ligado a ele de alguma forma.  Não existe zerar o coração, nem as emoções, mesmo se passássemos nosso tempo voltando os ponteiros do relógio.
A verdade é que se pudéssemos recomeçar do zero, numa amnésia existencial, cometeríamos erros novamente, choraríamos de novo... porque não traríamos conosco essa carga de experiência que carregamos hoje, que às vezes até pesa, mas é nossa e isso não podemos negar, nem renunciar.
E é melhor assim: acreditar que tudo o que fizemos valeu de alguma forma. Erramos? Sim, e daí? Aquilo que reconhecemos como erro não faremos novamente e cada vez que tropeçamos e aprendemos com isso, colocamos algo mais da nossa bagagem da vida.
Lamentar por algo que se teve? Que perda de tempo! As lamentações pelo que não fizemos não acrescentam nada na nossa vida. Precisamos viver de coisas concretas, do que realizamos, do que tivemos, mesmo se as perdemos.
Quem nos julga deveria julgar-se primeiro.
Ninguém é de todo bom e de todo mal. Não existem pessoas melhores que as outras, apenas as que ainda querem aprender e as que já perderam a esperança. Quem não chora por fora, chora por dentro, a diferença é que nesse caso ninguém percebe.
É possível recomeçar a vida, com novas ambições, fazer do velho, o novo e com uma grande vantagem: dessa vez existirão os parâmetros de comparação, as chances serão maiores do tomar decisões acertadas.
Então, acredite: tudo o que você viveu até agora valeu a pena porque é dessa vivência que você tira seu aprendizado. Se você tem 30, 50 ou 80 anos, você pode fazer sua vida diferente ainda, você pode olhar o mundo com olhos novos.
Deus não condena ninguém. São as pessoas mesmas que condenam-se quando cruzam os braços, imobilizam as pernas e colocam uma venda nos olhos.
A vida continua, mesmo se muitos desistem. E ela é muito mais rica para aqueles que abrem os braços ao futuro, dão as mãos ao passado e recomeçam. Essas pessoas jamais sentir-se-ão sozinhas.
Texto extraído da revista Voz Missionária – edição setembro-outubro 2010

sábado, 2 de outubro de 2010

Aprender sem pressão


Qual a coisa mais difícil que você já teve de aprender: raiz quadrada, andar de bicicleta, nadar, escrever ou esperar a sua vez de falar? Aprender é difícil. Ou, parece difícil. A gente nasce sem noção, nome ou idioma. Gastamos, em média, os primeiros 25 anos da vida para aprender uma profissão. Por outro lado, poucas horas depois do parto, sem aula de comunicação ou semiótica, já aprendemos que o choro é o atalho mais eficiente até o peito da mãe para matar a fome.

Pensando bem, aprender, pelo menos no início da vida, parece fácil. Observe o número de coisas que a gente aprende entre 0 e 3 anos de idade: sugar, andar, falar uma língua, comer sozinho, desenhar, cantar, se defender da mordida dos amiguinhos do jardim da infância… Isso, é claro, para não entrar nos casos, cada vez mais frequentes, de pirralhos que jogam games e escolhem seus vídeos preferidos no YouTube.

Navego por esses pensamentos numa pracinha de São Paulo. Estou impactado pela evolução da performance dos meus filhos menores no balanço. Há mais de ano me aplico com afinco na tarefa de ensiná-los a ganhar impulso no brinquedo sem precisar de eu ficar empurrando. Agora, justamente depois de um período longe da minha supervisão, sou surpreendido pela desenvoltura com que ambos aprenderam a ganhar velocidade, suingue e controle do aparelho com uma facilidade inexistente anteriormente sob meu treinamento. Eles percebem meu ar reflexivo:

– Pai, quer ver como a gente vai alto?, diz Clarice.

– É só esticar as pernas quando vai pra frente. E recolher quando vai para trás. É fácil, emenda Miguel.

– Quem ensinou?, pergunto enciumado.

– O Caio! Diz Miguel com entusiasmo, revelando a gratidão com o amigo da classe.

Fico diante da cena com um sentimento duplo. Feliz por vê-los brincando leves no ziguezague simples.E, confesso, um pouco frustrado com o fato de que, após mais de um ano de tentativas de treiná-los exatamente com a mesma técnica, eles só tenham tido o “clique” do aprendizado com outro professor, o Caio.

Faço um retrospecto de quantas vezes já tentei ensinar alguém a fazer algo que me parecia fácil, usando toda a minha energia, sem sucesso. Olho os dois trapezistas no balanço – Clarice se dá ao luxo de fechar os olhos por um longo tempo para experimentar a sensação de “estar voando”, segundo palavras dela – e imagino como deve ter sido divertida e eficiente a “aula” do professor Caio. Três almas livres, despreocupadas, brincando e aprendendo juntas os segredos da Física e da arte pendular do balanço, sem pressão por resultados, sem a responsabilidade de agradar ou preencher uma expectativa dos pais. Aos poucos, minha frustração foi se transformando num suave contentamento.

O drama de educar os seres humanos vem de longe. Tudo começou há milhares de anos, desde que deixamos de ser macacos, ou em 1770. A frase é do educador alemão Dieter Lenzen, se referindo ao ano da criação da primeira faculdade de Pedagogia da era moderna, em Halle, Alemanha. A palavra pedagogia tem origem no grego: paidós, criança; agogé, condução; direção ou educação de crianças. Naquela tarde na pracinha, eu aprendi uma Pedagogia muito especial: a do aprender brincando.
 
Texto de Marcelo Tas extraído de CRESCER